Personalidade do Ano 2019 da Academia Latina da Gravação

Por: Isabela Raygoza 

A fusão das raízes colombianas, combinadas com o folclore ibero-americano e um estilo de rock irreverente, fizeram de Juanes uma das estrelas mais inovadoras, convincentes e inspiradoras do pop latino do século XXI. O ídolo de Medellín redefiniu o gênero por duas décadas, combinando os sons da música tradicional e contemporânea, sempre mantendo um espírito exploratório.

Juan Esteban Aristizábal Vásquez nasceu em 1972, em Antioquia, Colômbia. Durante sua infância, ele aprendeu a apreciar a música de seu país. Sua exploração artística o levou a utilizar vorazmente suas raízes folclóricas com sua guitarra acústica, o que lhe permitiu descobrir os sons frenéticos do thrash metal. Sua angustiada adolescência o ajudou a criar sua primeira banda, Ekhymosis, com a qual lançou cinco aclamados álbuns de estúdio nos anos 1990.

No início do novo milênio, Juanes mudou seu som agressivo para um pop mais suave. Fíjate Bien, uma obra excepcional de rock pan-americano, serviu como base de seu auge criativo. Sua estreia solo trouxe em 2001 sete indicações para o Latin GRAMMY e três estatuetas, incluindo o prêmio de Melhor Artista Revelação. O pop eclético e contagioso de Mi Sangre (2004) o lançaria no estrelato global. Desde então, Juanes conserva seu ímpeto com suavidade e convicção.

Além de obter sucesso comercial – e de ter recebido 23 Latin GRAMMYs e dois GRAMMYs –, o artista e filantropo tem sido um grande defensor dos direitos humanos por meio de suas organizações sem fins lucrativos: Mi Sangre, que ele criou, e Paz Sin Fronteras. Juanes sempre buscou a paz através de sua música, como em “A Dios Le Pido”, um de seus primeiros sucessos e, mais recentemente, a balada de amor “Mis Planes Son Amarte”, de 2017.

“A arte transformou minha vida de uma maneira muito positiva e pode transformar a vida de muitas pessoas que possam fazer uso dela”, disse ele.

Em uma parada em Budapeste, Hungria, durante uma turnê agitada, Juanes fez uma pausa para refletir sobre sua lendária carreira e amor pela música.

Você foi o único artista que recebeu o reconhecimento de Melhor Artista Revelação e Personalidade do Ano da Academia Latina da Gravação. O que você acha dessa conquista?
Uau. Eu não tinha percebido isso e me sinto muito honrado. Esses 20 anos de minha carreira solo foram uma jornada incrível, desde que comecei com Fíjate Bien. Lembro-me de estar em Miami [para as indicações ao Latin GRAMMY de 2001] e, quando ouvi meu nome sete vezes nas indicações, fui ao banheiro chorar porque não conseguia conter essa emoção. Foi um choque muito forte. A Academia Latina e os Latin GRAMMYs me deram uma imensa oportunidade de abrir muitas portas ao redor do mundo. Imagine, aqui estou em Budapeste, 20 anos depois, e tenho um concerto em duas horas. Estou feliz por poder viajar pelo mundo e fazer minha música. Sinto-me super agradecido e honrado por ter essa oportunidade.

Sua evolução musical tem sido tremenda desde que você começou a tocar metal nos anos 1990. Em algum momento você imaginou chegar onde está hoje?
Desde que comecei a fazer música aos 13 anos, sempre sonhei como seria o meu futuro. Mas nunca tive absoluta clareza do que iria acontecer. Foi muito mais do que eu poderia imaginar em qualquer sonho, por mais ambicioso que fosse. Tem sido um caminho com muita alegria e luz, mas também um caminho que me ensinou a crescer através da dor e do fracasso. Porém, no final do dia, sinto uma imensa alegria de poder atuar como artista e músico, tendo o privilégio de fazer o que eu amo.

Quais foram suas inspirações musicais e como elas se manifestam no seu som?
Comecei [a amar] música desde tenra idade. Fui influenciado pelo que meus pais e irmãos escutavam no final da década de 1970. Ouvi música popular colombiana, como Totó La Momposina, Joe Arroyo, Diomedes Díaz, Grupo Niche e Octavio Mesa, e da América Latina ouvia Caetano Veloso, Los Panchos, Los Chalchaleros, Los Visconti, a trova cubana e os tangos de [Carlos] Gardel. Eu amo cumbia, guasca e vallenato. São elementos que estão sempre na minha música, entretanto, no fundo da minha alma, o rock foi muito importante.

Aos 13 anos, fiz uma curva radical de 180 graus. Descobri a guitarra elétrica e comecei a ouvir rock, mas foi no metal que perdi a cabeça, no sentido positivo da frase. O Metallica transformou minha vida para sempre. Encontrei inspiração, força, raiva, velocidade, concentração, tudo o que eu precisava aos 15 anos. Kraken, uma banda de heavy metal dos anos 1980, também marcou fortemente minha vida pela maneira como eles tocavam rock em Medellín. Depois dessa época, encontrei um meio termo.

Um artista chave no meu caminho foi Carlos Vives. Lembro-me de quando ele lançou Clásicos De La Provincia – o álbum que saiu depois de sua novela “Escalona” – que, para mim, foi uma revelação. Ele validou [a fusão de gêneros], e isso marcou um antes e depois em termos de inspiração. Quando eu o vi cantar em concertos, onde ele misturou vallenato com rock e funk, eu disse: “Uau. Um dia eu quero fazer o que ele faz”. Hoje estou no meio desses dois mundos. Não me considero parte de um gênero específico, mas me considero parte da música. Eu aprecio tudo, desde hip-hop, reggaeton, death metal, funk, até música regional mexicana. Se a música é boa, eu me conecto com esse gênero.

Nas últimas décadas, a Colômbia passou por cenários musicais transformadores, do metal e rock alternativo ao reggaeton. Como você descreveria essa evolução?
Muito importante. O que acontece hoje com a música urbana é incrível. Para mim, é motivo de comemoração que a Colômbia seja um epicentro de artistas que hoje lideram o mundo da música latina, que haja produtores e compositores [na vanguarda]. É muito impressionante porque nunca foi assim. Sempre figuravam Argentina e México como referências, mas a Colômbia não havia atingido um momento como o de hoje, que é muito bonito.

Ao longo de sua carreira, você tem sido um defensor da paz e foi fundamental na criação de duas entidades sem fins lucrativos. Para você, qual é a conexão entre música e filantropia?
São coisas que você deve fazer se realmente as sentir. Pessoalmente, é algo que sinto no coração. A arte transformou minha vida de uma maneira muito positiva e pode transformar a vida de muitas pessoas que possam utilizá-la. Através da música, eu me conectei com muitas pessoas, situações e histórias. Comecei a abordar questões sociais desde os 14 ou 15 anos, quando morava em Medellín. Minha banda de metal, Ekhymosis, tinha letras sociais. Elas falavam sobre o que estava acontecendo na cidade e o que se passava com os jovens, porque eles estavam sendo mortos. [O ativismo artístico] foi uma semente que foi plantada e continua crescendo até hoje. Mas isso não é uma obrigação. Nem todos os artistas ou pessoas precisam fazer isso. Se você sente isso no coração e quer fazê-lo, então faça. É uma maneira de agradecer e devolver o que você recebeu.

O que vem por aí?
Meu álbum Hay Más Futuro Que Pasado será lançado no final do ano. Terá 10 músicas marcadas por ritmos de cumbia, vallenato, guasca e reggae. É muito mais sobre festa, dançar e se divertir. Não é um álbum, digamos, sombrio, mas muito iluminado. Será um reflexo melhor do que toco ao vivo com a minha banda. Foi uma experiência muito legal ter tido a oportunidade de trabalhar com muitos produtores e compositores com quem nunca havia trabalhado antes na minha carreira. Eu sempre trabalhei sozinho em casa, com meu computador e minha guitarra. Dessa vez, eu me dei a oportunidade de abrir a janela e deixar entrar o ar fresco. Foi inspirador e um processo de muito aprendizado. Quero aproveitar esse momento para continuar crescendo como músico e como artista.