Personalidade do Ano 2017 da Academia Latina da Gravação

                                                                                                                                                                                                                                                                          Javier Salas por MOW Management

Por Justino Aguila

Quando criança, Alejandro Sanz sonhava poder subir em um palco e interpretar suas músicas. Quando finalmente declarou que queria ser um artista, seu pai, Jesús Sánchez, músico, deu-lhe a sua benção. Sua mãe, Maria Pizarro, não pensava da mesma maneira. "Alejandro, você tem uma chance em um milhão", ela disse. Seu filho respondeu: "Mãe, eu sou essa pessoa. Eu sou esse um em um milhão”.

Na década de 1980, quando a maioria das crianças na Espanha seguiu as aventuras musicais de grupos infantis como Parchís e Menudo, Sanz ficou fascinado pela música de artistas emblemáticos como o maestro Paco de Lucía ou Prince. "Meu primeiro amigo foi o violão", lembra Sanz. "A música tinha que fazer parte da minha vida."

No início de sua carreira, Sanz não tinha sequer dinheiro suficiente para o transporte público, mas sua paixão e perseverança deram frutos. Suas canções, que combinam elementos de rock, música eletrônica, jazz e flamenco, entre outros gêneros, aliadas à sua voz inconfundível, começaram a impressionar os executivos da indústria e a encontrar a aceitação do público e da crítica nos dois lados do Atlântico.

Seu álbum, Más, o disco mais vendido da história espanhola, com 2,2 milhões só na Espanha e seis milhões no resto do mundo, é frequentemente citado e analisado por seus arranjos e estrutura, que acompanham melodias memoráveis com grande habilidade, especialmente em suas baladas românticas. Alejandro Sanz gravou 10 álbuns de estúdio, vendeu mais de 25 milhões de cópias em todo o mundo e é um dos artistas mais conhecidos de sua geração. Ao longo do caminho, ele recebeu uma infinidade de prêmios, incluindo 18 Latin GRAMMYs e três GRAMMYs.

Inspirado por sua amizade e colaboração com De Lucía, que foi um de seus mentores no início de sua carreira, Sanz considera essencial apoiar e colaborar com outros músicos. Essa atitude resultou em colaborações como "Yesterday I Heard the Rain" (o clássico “Esta Tarde Vi Chover”), com Tony Bennett; "Looking for Paradise", com Alicia Keys; “Deja Que Te Bese”, com Marc Anthony; e “La Tortura”, com Shakira.

"Eu quero ser lembrado como alguém que colocou a paixão na vida", diz o cantor. "É o maior poder que uma pessoa possui. Você não pode fazer nada na vida se não tiver paixão.”

O que significa ser homenageado como Personalidade do Ano?
Este ano não poderia terminar de uma maneira melhor. É a maior honra. Essa homenagem é muito especial porque não há regras em termos de música. Eu vou aproveitar muito. Quero que seja especial, diferente, e quero que todos gostem.

Você tem 18 Latin GRAMMYs, três GRAMMYs e muitos outros prêmios. Esses reconhecimentos ainda são importantes para você?
Os prêmios não tornarão você uma pessoa melhor ou um artista melhor, mas o reconhecimento vem de colegas que o amam. Receber o grau de doutor honoris causa do Berklee College of Music, em 2013, me faz lembrar que eu preciso melhorar todos os dias e ser autêntico.

Quando a música chegou à sua vida?
A música praticamente me atacou. Eu precisava fazer música. Era parte da minha maneira de me expressar. Eu não gostava de interagir muito com as pessoas e preferia estar sozinho em casa. A música tornou-se meu idioma e, afinal, consegui me dedicar a ela.

Minha mãe foi a primeira pessoa a me inscrever na escola de instrução de guitarra. Ela queria nos levar [a mim e meu irmão] para uma academia de caratê, mas estava fechada. Ao lado desse lugar havia uma escola de guitarra e ela me inscreveu ali. Eu poderia ter sido um ótimo carateca. [Risos]

Como você evitou os obstáculos de uma indústria tão difícil?
Como artistas, entramos no setor pelo nosso amor pela arte e então percebemos que é um negócio que inclui pessoas que não têm as melhores intenções. A melhor coisa na vida é sempre olhar as pessoas nos olhos quando estão na sua frente e tentar ser honesto.

Como é o seu processo de composição musical?
O meu processo varia. Meu caminho muda. Aprendi a tocar novos instrumentos e os coloquei em prática. Incluí novos tipos de música e estilos que chamaram minha atenção. Eu toco com a experiência que tenho e que inclui o legado do México, Cuba, Peru, Itália e outros países. Toda vez que eu crio, componho uma nova história, crio novos espaços e cores para pintar paisagens diferentes.

Como a tecnologia afeta o seu processo criativo?
A tecnologia tem ajudado, em sentido positivo, a democratizar a música; e agora todos podem gravar canções em sua própria casa. Porém um estúdio caseiro nunca conseguirá reproduzir a qualidade de som de um bom estúdio de gravação. E não podemos nos esquecer que as máquinas não podem substituir a emoção ou o talento.

Você é um dos artistas com o maior número de seguidores nas redes sociais. O que isto significa para você?
Isso me faz muito bem, mas também implica certa responsabilidade. Se temos uma voz devemos utilizá-la, acho que seria irresponsável não dar a minha opinião sobre certos temas, embora entenda que há pessoas que decidem não fazê-lo. Não podemos permanecer em silêncio quando as coisas acontecem em países irmãos, como a Venezuela. Eu sou muito combativo, acho que esse país foi sequestrado. É um país com muito talento, pessoas boas, trabalhadoras, corajosas e que foram sequestradas. Eu levanto a minha voz contra isso, mas também estou envolvido com mudanças climáticas, crises humanitárias... Há tantas frentes abertas que é impossível não participar de nenhuma delas. Realmente me faltam dias e redes sociais.

Você pode nos dizer que causas apoia pessoalmente?
Colaboramos com muitas organizações, especialmente aquelas que envolvem crianças, doenças e o meio ambiente. Eu me envolvo com todas essas campanhas porque meu coração pede isso e porque enriquece a minha mente.

Em junho, você comemorou o 20º aniversário do seu emblemático álbum Más com o concerto único Más Es Más tornando-se, assim, o único artista da história a vender todos os ingressos do Estádio Vicente Calderón em apenas 30 minutos. Como foi isso?
Foi incrível, nunca pensamos em vender os 50 mil ingressos em 30 minutos. Reuni as duas bandas, a que eu tive na turnê de 98 e a atual. Ensaiamos e nos preparamos por três meses, projetei um cenário exclusivamente para aquela noite. Foi um concerto especial, com a colaboração de muitos amigos que se apresentaram maravilhosamente, foi uma comunhão de amor total. Felizmente, tudo foi gravado para compor um DVD, que sairá ainda este ano, e também será lançado um documentário nos cinemas, bem como publicaremos um livro coral com muitas vozes, sob a forma de testemunho.

Qual é a coisa mais importante que você aprendeu em sua carreira?
Eu acho que o mais importante é ser fiel a si mesmo e ter a capacidade de olhar nos olhos, ser honesto no que faz, e comunicar acima de tudo, bem como amar o seu povo. É muito importante cuidar de seus fãs. Você deve dar-lhes muito amor e tentar devolver a eles tudo o que lhe dão, que é muitíssimo.