The Latin Recording Academy
ImprensaPareceria impensável que a história do tango, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 2009, celebrado em salas de concertos e em salões de bailes ao redor do mundo, possa simplesmente desaparecer como uma pluma ao vento por pura distração. No entanto, de acordo com a TangoVia Buenos Aires - uma sociedade sem fins lucrativos dedicada a projetos educativos de preservação e divulgação do tango, situada em Buenos Aires - das mais de 100.000 gravações de tango feitas entre 1902 e 1995, quando se marcou na Argentina o fim da era analógica, menos de 20 por cento estão disponíveis em formato digital.
Irremediavelmente pelo menos 3.000 gravações já não existem em nenhum formato! E a isto se soma a falta de muita música impressa, incluindo desde partituras básicas de canções até o registro de regras para orquestra típica.
Para Ignacio Varchausky, (33), contrabaixista, educador e diretor artístico da Tango Via, preservar esta história transcende o artístico. “Na Tango Via insistimos que este é um projeto sobre a identidade”, disse Varchausky. “A preservação tem a ver com a memória, e a memória tem a ver com a identidade.”
A associação está trabalhando em vários projetos incluindo, dentre outros, o Arquivo Digital do Tango (ainda em fase piloto) e a publicação em parceria com a Biblioteca Nacional da Argentina, de Regras para Orquestra de Tango - um livro de regras originais do pianista e compositor Horacio Salgán.
Mas a TangoVia (www.tangovia.org) também produziu concertos, o longa-metragem documentário “Si Sos Brujo”, que narra a formação da Orquestra Escola de Tango Emilio Balcarce, e duas séries de discos, “A Arte da Orquestra Típica”, e “A Arte do Bandoneón”. O disco “Mi Fueye Querido”, dedicado ao professor Leopoldo Federico e parte da série sobre o bandoneón, ganhou em 2009 um Latin GRAMMY como Melhor Album de Tango.
Em entrevista realizada em Nova York, Varchausky, fala da filosofia atrás do projeto de preservação, digitalização e da urgência de terminar o trabalho.
Como nasceu a idéia do Arquivo Digital do Tango?
O projeto tem uma primeira versão a partir do meu fanatismo pelo cantor Ignacio Corsini. Descobri rapidamente que havia muito poucas coisas disponíveis, comecei a indagar e, assim, aos poucos comecei a me entrosar no mundo dos colecionadores. Fiz amizade com alguns dos colecionadores mais importantes, incluindo José Forzano. Ele começou a me emprestar discos, assim com iniciativa própria, comecei a digitalizar de forma muito rudimentar estes discos de massa no formato mini disc, o qual não é o melhor formato, mas no momento era o melhor que podia fazer.
A partir disso comecei a pensar em organizar um projeto para digitalizar tudo de Corsini. Aos 18 anos e nenhuma credencial profissional, levei uma primeira versão da idéia ao Fundo Nacional das Artes, e aí ficou a coisa.
Segui trabalhando, iniciei profissionalmente como músico, também comecei a produzir concertos, montei a Orquestra Escola de Tango e criamos a Tango Vía.
Nos últimos quatro anos, dedicamos todos os recursos que reunimos para saber quantas gravações (de tango) existem, em que formato estão, quem as têm, como podemos adquirir esse material, de que equipamento necessitamos e quais são os procedimentos necessários para obter um padrão internacional de preservação.
Por que teu interesse pela preservação?
Porque, naturalmente, desde que começou meu interesse pelo tango, me dei conta que a informação que necessitava não estava disponível. Então, por iniciativa própria cruzava a cidade de ponta a ponta mil vezes buscando coleções que tivessem o material que necessitava ou me intrigava.
Me interesso pelo tango não só pelo fato artístico, que é extraordinário nas suas múltiplas facetas, mas também porque é uma forma de arte que entendo ser como uma peça fundamental para nos aproximarmos e entender a identidade (argentina).
Compartilhar a informação é resguardar o passado para entender o presente e assegurar o futuro. Se não sabe de onde você vêm, não sabe a onde quer chegar. Há uma frase (do compositor alemão Gustav) que gosto muito: “Tradição não é adorar as cinzas, mas transpassar as chamas.” Essa é a filosofia à qual subscrevemos.
Como é o projeto de digitalização, e o que fizeram até agora?
Estamos em uma etapa piloto e para ela escolhemos três artistas legendários da história do tango e três artistas contemporâneos: Ignacio Corsini, Alfredo Gobbi, Horacio Salgán, Sonia Posetti, o Quinteto Ventarrón e Julio Pane.
Foram eleitos para mostrar que o projeto não tem um olhar nostálgico, mas entende o tango como um animal vivo. Nós entendemos que é preciso cuidar da história e da tradição, mas não esgotar-se nela. Dentre diferentes coisas que já preservamos da história, escolhemos Corsini, uma figura esquecida, mas muito importante na sua época; o Horacio Salgán que tem 94 anos e apesar de ser considerado um ícone vivo, boa parte de sua obra não está em nenhum lugar; finalmente (ao violinista e compositor) Alfredo Gobbi, quem tem um catálogo pequeno de 85 gravações, mas importante. Sua orquestra é a que melhor representa a enorme variedade de elementos estilísticos que convivem na linguagem instrumental do tango.
Como você imagina o produto final?
O projeto é conseguir a digitalização do catálogo da história do tango nos próximos cinco anos e por meio de acordos diversos, obter para nosso banco de dados toda esta informação disponível online. Assim qualquer indivíduo ou instituição que tenha interesse pode ter acesso à informação. O que queremos é aumentar a valorização desta arte, compartilhar informação, educar o público e fazer com que esta arte extraordinária esteja disponível a qualquer pessoa do mundo, a um duplo click de distância.
Tradução: Malu Mesquita
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